As eleições presidenciais deste ano
levaram o PSDB a uma situação inédita. Pela primeira vez desde que deixou o
governo federal, em 2003, o partido teve apoio popular na disputa contra o PT.
No entanto, enquanto um setor da legenda defende que os grupos que foram às
ruas sejam integrados ao ninho tucano, o viés de extrema direita mostrado por
algumas organizações que defenderam a candidatura de Aécio Neves é motivo de
preocupação para outro setor que teme a descaracterização ideológica do PSDB.
Ontem, em ato político ao lado do
senador Aécio Neves e do governador Geraldo Alckmin, principais postulantes
tucanos à sucessão de Dilma Rousseff em 2018, o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso defendeu que o partido continue nas ruas, mas determinou limites e filtros
claros.
"Hoje temos democracia, temos
liberdade, e é dever nosso, em primeiro lugar, preservar a democracia
respeitando as regras do jogo, respeitando a Constituição, aceitando derrotas e
estando sempre dispostos, derrotados ou vitoriosos, a cumprir a lei e defender
o Brasil", disse o ex-presidente.
Os tucanos aguardavam um
pronunciamento público de FHC desde que o deputado eleito Coronel Telhada
(PSDB-SP) defendeu o separatismo do Brasil em uma rede social e a executiva
nacional tucana questionou na Justiça Eleitoral o sistema de urnas eletrônicas.
Em conversas reservadas. FHC tem dito
que o PSDB não pode apoiar, por exemplo, o pedido de impeachment da presidente
Dilma Rousseff - a não ser que surja um motivo - e muito menos se misturar com
grupos que defendem uma intervenção militar no País.
Ele é apoiado por diversas
lideranças, entre elas o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Indagado
ontem sobre o impeachment de Dilma, Alckmin foi categórico. "Sou
totalmente contra. Totalmente", enfatizou o governador.
A declaração de FHC foi interpretada
por tucanos como um recado. Mas nem todo mundo entendeu. Poucos minutos depois
da fala do ex-presidente, a aposentada Marly Garcia Cesar, que prometeu
participar de um ato hoje pelo afastamento da presidente, interrompeu o
discurso de Aécio para perguntar se "ainda há esperança de tirar este
governo corrupto". O senador mineiro, presidente nacional do PSDB,
estabeleceu como limite o "respeito à democracia", mas incentivou a
manifestação.
"Todas manifestações são
legítimas e a rua, como diz uma música baiana, é do povo. Dentro das regras
democráticas, defendendo sempre a democracia, as manifestações são legítimas e
devem continuar acontecendo", disse Aécio.
Antes, em entrevista aos jornalistas,
o candidato derrotado à Presidência afirmou que o não cumprimento da meta de
superávit fiscal pode ensejar um processo de crime de responsabilidade contra
Dilma. O crime de responsabilidade é um dos casos que podem motivar o pedido de
impeachment de um governante.
Abrir as portas. Já o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP),
candidato a vice e principal apoiador de Aécio em São Paulo, defendeu a entrada
dos grupos que foram às ruas no partido. "Assumimos o compromisso de abrir
as portas dos nossos partidos, não só PSDB, a essa militância, de chamar
aqueles que despertaram para a política para que venham participar conosco,
destrancar as portas de muitos diretórios para a nova política que saiu nas
ruas. E dialogar também com as novas formas de organização", afirmou.
Um dos entusiastas da entrada dos
novos manifestantes no PSDB é o presidente do maior diretório municipal tucano,
o da capital paulista, Milton Flávio. Ele defende que mesmo os mais radicais
sejam incorporados ao PSDB e, depois, recebam formação política - uma forma de transformar
"o joio em trigo". "Temos que manter este vínculo com as
ruas", disse, esclarecendo que manifestações antidemocráticas estarão
proibidas. "O PSDB não pode ser usado para canalizar qualquer coisa."
Segundo Milton Flávio, o PSDB
paulistano vive uma explosão inédita de filiações depois das eleições
presidenciais. "Desde a criação do partido não vi nada igual",
afirmou.
Por outro lado, um grupo ligado a FHC
tenta há mais de uma semana viabilizar um manifesto defendendo respeito aos
princípios originais do PSDB e à social-democracia.

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