A derrota de Aécio Neves (PSDB) para Dilma Rousseff (PT) não acabou apenas com as esperanças do senador mineiro de repetir os passos de seu avô, Tancredo Neves, eleito presidente em 1985 mas morto antes da posse. A vitória do PT acabou também com a expectativa do PSDB de voltar ao poder após 12 anos longe do comando do país.
Aécio foi superado por Dilma no domingo por uma margem apertada, de aproximadamente 3,5 milhões votos. O tucano teve 48,36% dos votos contra 51,64% da petista. Ele havia chegado ao segundo turno confiante, após superar a ex-senadora Marina Silva (PSB), mas sua candidatura acabou tanto perdendo o fôlego como a preferência da maior parte dos eleitores.
Agora, com mais uma derrota do PSDB em uma eleição presidencial, qual será o futuro do partido?
Derrotas
Desde 2002, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) participa do segundo turno das eleições presidenciais. Naquele ano, a sigla tentou, sem sucesso, permanecer no poder – após dois mandatos consecutivos de Fernando Henrique Cardoso (que ganhou as eleições de 1994 e 1998 no primeiro turno). O então candidato José Serra, entretanto, acabou derrotado por Lula.
Em 2006, o petista concorreu à reeleição e superou Geraldo Alckmin. Quatro anos depois, a situação se repetiu com Dilma, que se sagrou vitoriosa sobre José Serra.
Na avaliação de fundadores do PSDB ouvidos pela reportagem da BBC Brasil, o partido cometeu "vários erros" nos últimos anos, mas vai sobreviver à intempérie política.
Para o deputado federal Carlos Mosconi (PSDB-MG), um dos fundadores do partido, o PSDB "não sabe fazer oposição".
"Não temos essa cultura oposicionista ferrenha como a do PT. Somos muito cautelosos. Não agredimos. Não acho que devemos mudar nesse sentido, mas certamente perdemos terreno. Ainda temos de aprender a fazer oposição", afirma.
A educadora Guiomar Namo de Mello, outra fundadora do PSDB, concorda. Segundo ela, que diz ter abandonado a política, a sigla teve "muitos infortúnios".
"O partido tem dificuldade de fazer oposição. Mas política é um jogo para profissionais. Não se vai para frente sem quebrar ovos. Por isso, eu desisti", diz ela.
‘Linguagem do povão’
Guiomar acrescenta que o PSDB "não soube renovar seus quadros" e carece de "liderança única".
"O partido não tem uma figura centralizadora como Lula, que tem a capacidade de eleger um 'poste' para depois saber se ele vai dar a luz. Não existe um cacique único", afirma.
Na opinião da educadora, os tucanos também não incorporaram em seus discursos "a linguagem do povão".
"O PSDB ainda não encontrou a maneira mais adequada de traduzir sua plataforma política, a social democracia, para a população, especialmente os mais pobres", conclui.
Princípios
Para o ex-ministro do Meio Ambiente do governo José Sarney, Deni Lineu Schwartz, também fundador do PSDB, a derrota de Aécio para Dilma foi um "castigo merecido". Ele vê "traição dos princípios" que regeram a fundação da sigla, em 1988.
"O PSDB não foi imaginado como o partido que temos. Propúnhamos a mudança do regime para parlamentarismo e eleições distritais. Voltamos à velha política de pessoas e não de partidos", criticou ele.
"Na verdade, o partido saiu do seu rumo inicial e foi descaracterizado. Se nos mantivéssemos fiéis às nossas propostas, talvez estivéssemos à frente do país hoje. Mas não levamos aquela bandeira adiante", acrescenta.
Já na avaliação do político catarinense João Gaspar Rosa, outro fundador do PSDB, o partido foi abalado pelos escândalos de corrupção.
"O PSDB foi criado por uma ala do antigo MDB descontente com os rumos que aquele partido havia tomado. Infelizmente, algumas pessoas corromperam nossa filosofia doutrinal", afirma Gaspar Rosa, sem citar nomes.
Segundo Euclides Scalco, ex-ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República durante o governo FHC e também fundador do PSDB, falta ao partido, além de "saber fazer oposição", "capilaridade".
"O PSDB nunca se preocupou em se organizar no interior dos Estados. Um partido não existe sem os municípios. São eles a força motora de qualquer sigla. O PSDB não tem capilaridade", afirma Scalco, que também criticou a falta de formação de novos quadros e o distanciamento dos princípios fundadores, como o parlamentarismo.
Volta por cima
Os fundadores do PSDB, no entanto, acreditam em uma volta por cima. Eles admitem que o partido passa por problemas crônicos, mas tem "força" e "credibilidade" para vencê-los.
Também acreditam em uma eventual vitória de Aécio, caso o ex-governador de Minas Gerais decida voltar a concorrer à Presidência em 2018.
"O Aécio é novo [tem 54 anos]. Certamente poderá concorrer a uma nova eleição e ganhar. Vejo essa derrota como um teste para que ele volte mais forte no futuro", defende Gaspar Rosa.
"O PSDB é um partido tradicional, com posições muito bem marcadas. Não acho que traiu sua coluna vertebral. Vejo o Aécio como uma nova liderança para o partido", conclui Guiomar.

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